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quinta-feira, 26 de março de 2009

VARAIS

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© João Menéres


VARAIS NA SERRA DO MARÃO

Junto a um ribeiro, na Serra do Marão (Trás-os-Montes),
as mulheres aproveitam o Sol do Inverno
para estender a roupa, depois de lavada e torcida.
Por cima de pedras que estão a jeito
ou por algum arame que por aí haja.

E, agora, ouçam o que Miguel Torga escreveu:

REGRESSO

Regresso às fragas de onde me roubaram.
Ah! minha serra, minha dura infância !
Como os rijos carvalhos me acenaram,
Mal eu surgi, cansado, na distância !

Cantava cada fonte à sua porta:
O poeta voltou!
Atrás ia ficando a terra morta
Dos versos que o desterro esfarelou.

Depois o céu abriu-se num sorriso,
E eu deitei-me no colo dos penedos
A contar aventuras e segredos
Aos deuses do meu velho paraíso.


Embora esta poesia se reporte ao regresso do próprio
Miguel Torga à sua aldeia de S. Martinho de Anta e
aos sítios da sua eleição enquanto jovem,
não resisti à tentação de, numa metáfora,
personificar as roupas que todos os dias são levadas
aos ribeiros, por caminhos que por fontes passam,
espreguiçadas em penedos (ou fragas), onde
tagarelam entre si, e logo, antes do sol se deitar,
são novamente levadas de volta às suas telhas.



24 comentários:

Aidinha disse...

João

A sua foto diz muita coisa, é linda!
Mostra-nos a vida.
Podemos parar a olhá-la e quase adivinhar a dura lida dessas mulheres sofridas que ali vem lavar as roupas da família.

Mas abstraímos o sofrimento para admirar as bandeiras coloridas
que enfeitam o belo cenário e completam a beleza da foto.

Não menos comovente é o poeta que você nos apresenta, com esse REGRESSO que sendo o seu próprio REGRESSO, como voce nos explica, ou figura metafórica, é de uma delicadeza singular.

Gostoso de se ver e de se ouvir.
Obrigada João.

Beijo
Aidinha

Alice Salles disse...

É tão bom conhecer a vida de algumas pessoas que estão tão longe das nossas...

Beijos

João Menéres disse...

AIDINHA

Senti a sua falta nestes últimos dias.

Na nota final, como muito bem leu, eu coloquei as peças de roupa à conversa umas com as outras, representando cada uma a personagem que na vida real vestiam ou serviam.
Apenas fiz a minha versão do REGRESSO , de Miguel Torga...

Ainda bem que gostou.

Um beijo.

João Menéres disse...

ALICE

Pois tantas estranhas formas de vida há, que nós nunca chegaremos a conhecer senão uma ínfima parte.

Um beijo.

disse...

Jõao que linda... associação.e faço minhas as palavras da Alice....realidades tão diferentes das nossas ...andar por aqui muito nos enriquece..beijos

João Menéres disse...

VI

Obrigado pela visita.

Apareça sempre que possa.

Procuro que, de uma forma ou doutra, haja muita variedade.

Um beijo.

Georgia disse...

Joao, que linda foto que belo varal se misturando ao verde.

Miguel Torga? Conheco, recebi de presente um livro dele que logo estarei lendo.

Linda a ligacao que fizeste entre os verso de quem volta a foto do varal.

Abrcaos

Lina Faria disse...

Acredito, a energia dos corpos permanecem mantendoas formas das vestes. Sua foto mostra isso. Linda!
lina

João Menéres disse...

GEORGIA

Tens por lá um campo verde, um ribeiro, rochas e alguns arames.
A roupa em qualquer destes poisos se dá bem.
Embora, geograficamente mais abaixo, nesse livro que tens vais encontrar uma vivência que em tudo se compara à vida aqui mais no alto.

Um beijo.

João Menéres disse...

LINA FARIA

É como corpo são em alma sã...

Um beijo e obrigado.

marie disse...

João
Mais uma belíssima foto para o Eduardo postar no Varal!
Quanto aos versos, sendo do Miguel Torga, nada mais há a acrescentar...
Beijo

João Menéres disse...

MARIE

Muito obrigado pelo comentário. Ando sempre de nariz no ar e olhos bem atentos na esperança de encontrar varais diferentes em sítios diferentes.
Às vezes, sou bem sucedido. É como ir à caça...
Um beijo.

Maria Augusta disse...

João, a foto é linda, o poema também e teu comentário no final é uma preciosidade. Tudo isto nos transporta no tempo e no espaço, imaginando estas mulheres que iam em bando lavar as roupas no riacho, cantando lindas canções.
Que delícia de post!
Um abração.

João Menéres disse...

MARIA AUGUSTA

Colocáste as palavras exactamente no tempo já passado.
Um bucolismo...Há muitos e muitos atrás (talvez há 68 para trás, porque eu me lembro, retenho na memória, perfeitamente), as lavadeiras dos campos faziam não sei quantos quilómetros a pé para virem às povoações e cidades buscar roupa para ser lavada lá no rio. E acho que na semana seguinte voltavam para entregar essa roupa já passada a ferro de carvão e levar outra.
Em casa dos meus Pais, isso não sucedia pois havia pessoal que chegasse (até uma costureira uma vez por semana! Hemengarda era o seu feio nome...a quem chamava, para a arreliar, de espingarda...).

Um beijo e obrigado pelo teu testemunho que me fez recordar a minha meninice.

€ster disse...

Querido João,

É sempre um prazer vir ao seu blog, é uma festa para os meus olhos,e como se não bastasse, junta-se a toda essa beleza, sua sensibilidade escolhendo poemas que tem tudo a ver com as imagens,

aprecio bastante a maneira como vc e a Georgia conduzem os comentários lá no blog "Vítima da Quinta", fazem de maneira que todos possam participar, bem interessante!

aprecio sobretudo o carinho que vejo demonstrado em vc de diversas maneiras,

obrigada querido amigo!

Conceição Duarte disse...

João, que lembranças divinas da vida de cada um de nós, não é?
Aqui, ficou um pedacinho da sua vida, do que vc viu e viveu. E que bom que ainda pode ver.

Apesar da beleza, sentimos em cada varal mostrado, que a vida continua. Seja boa, seja dura, sejamos pobres ou ricos, velhos ou moços, mas as coisas mundanas estarão sempre penduradas ao sabor do vento e do tempo. E assim, a vida continua.
Linda sua foto e sua lembrança.
beijos e carinho, CON

L.Reis disse...

Lembro-me tão bem desta roupa assim ao sol "espreguiçada", quando, criança, ia passar férias à terra do meu pai...um belo pormenor de outors tempos a entrar presente adentro. ( O Eduardo vai amar :))

João Menéres disse...

ESTER

Desculpa este atraso no agradecimento que te é, naturalmente, devido.
Como já deves ter tido a percepção, o grifo planante anda por aí...ou seja, não tem a preocupação de apresentar só as imagens de que mais gosto, ou que, eventualmente, possam ter mais valor como IMAGEM FOTOGRÁFICA.
O sub-título do blogue deixa isso explícito.
Por isso, incluo outros assuntos, outros temas com diferente finalidade.
Divulgar o nosso património, por exemplo...

Quanto às brincadeiras com a Geórgia, a propósito da Vítima da 5ª., acho que tem animado, e esta última semana, já houve mais adesão.
Assim, quem reconhece a Vítima deixa uma luzinha acesa.
Quem não reconhece, é "convidado" a continuar a busca.

Obrigado,uma vez mais pela simpatia das tuas palavras.

Um beijo.

João Menéres disse...

CONCEIÇÃO DUARTE

Nem sabes quanto adorei o teu comentário !!!

Sabes porquê?
É que não trouxeste aquela cantilena dos hipócritas, dos falsos que LEVANTAM vozes a falar do coitadinho, da explorada gente de há 40 anos atrás.

É inacreditável como esses hipócritas se esquecem (?) que tudo vai evoluindo na vida. Muita tecnologia, cria riqueza mas, logo de seguida, desemprego.

No interior do país, nessa altura, as pessoas podiam viver muito pobremente, mas não passavam fome.
Ao contrário, hoje, muita gente vive com luxos que não eram tão numerosos, mas no interior ninguém passava fome. Viviam do que a terra dava.

Um beijo grande, querida CON.

João Menéres disse...

L.REIS

Já agora: de onde era o teu Pai ?

Um beijo

erupção_do_ser disse...

João, nao resisti à tentação de aqui poisar com enorme saudade de estar aqui mas também, de recordar belos momentos junto ao rio com minha mãe e outras lavadeiras e colorir as silvas e muros com nossas roupas, numa azafama entre mil odores a roupa lavada. Eu pequenina tinha também a minha pedra e algo em madeira para me ajoelhar... obrigado por me levar pela correnteza das águas da infância,
Beijinho

João Menéres disse...

ERUPÇÃO_DO_SER

Se não resististe à tentação de poisares aqui, então, digo-te, que é uma notícia óptima que me dás.
Se leres o que escrevi para a Conceição Duarte, verás que, de uma maneira ou doutra, estás a reforçar as minhas palavras, sendo tu uma protagonista criança que tinha a sua pedra e a tábua onde poisavas os joelhos.
E o sentimento que traduzes é o de Alegria, de Festa.
Imagina, como uma imagem colocada aqui, te trouxe à memória tão felizes recordações...
Se por mais não fosse, estas tuas memórias aqui mostradas já em muito valorizaram a minha imagem.

Beijo que na corrente do rio passa.

Eduardo P.L disse...

Lina,

realmente passei por aqui no dia da postagem. Me lembro de ter feito um comentário, e não sei o que dele foi feito. Se não é o amigo João me dar um toque, teria passado batido! O João, Lina, só manda para o Varal os seus de segunda mão!...srsrs

Brincadeira!

Obrigado à Lina e ao João por me avisar!

João Menéres disse...

EDUARDO

Vou avisar a LINA...Não mando nada em 2ª mão !
Lá a clientela é que é outra, são ares mais finos.
Mas, raro é o dia em que não comente o varal do dia ou o dos por e-mail !
Verdade ou mentira?

Forte abraço.